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Quando eu era bem pequena, e adorava os livros de português da escola – não os de gramática, os de português – normalmente lia os textos todos no começo do ano, me deliciando com as palavras bem colocadas.
Um deles, um fragmento difícil que abria um capítulo cheio de historinhas coloridas e textos infantis, era de John Donne, e foi escrito em 1616.
Mais tarde eu descobriria que aquelas palavras eram célebres, mas, na minha inocência de menininha, elas naturalmente caíram num terreno fértil, e ficaram guardadas na lembrança durante muitos anos. Lógico que não ficou a decoreba, só a frase final, que sintetiza tudo:
Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio.
A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.
Muito mais tarde, nos meus anos de reportagem, eu estava com a equipe de cidades na rua, em ronda, e fomos acionados para seguir até um bairro super populoso, onde uma criança havia sido deixava na porta de uma casa e encontrada morta na manhã seguinte. A mãe abandou o bebê na madrugada, provavelmente achando que ele seria acolhido quando a porta se abrisse. Mas o colocou perto de um canteiro, e um ataque de formigas fez com a criança morresse ali mesmo. Tudo aquilo me chocou tanto que me angustia até hoje. Mas eu era tão inexperiente e foca que não fiz nada além de pensar, muito, na situação.
Não existem palavras que a gente possa usar para categorizar tamanha barbaridade. Hoje, uma das maternidades da capital acolheu um bebê sem batimentos cardíacos, prematuro. Ele foi reanimado e está numa U.T.I neonatal. A mãe deu à luz no meio da rua e foi embora antes que alguém visse.
Passamos o dia inteiro sem qualquer informação sobre o paradeiro da mãe. Não se sabe nome, não sei se sabe quantos anos tem, não se sabe, enfim, quem é. Num caso como esse, cabem milhares de indagações… mas, acreditem, ninguém buscou as respostas. No hospital, certamente profissionais de saúde e assistentes sociais acham que não é papel deles fazer investigações. Nas redações, certamente os jornalistas pensam que não têm tempo – a pauta precisa ser entregue, ora essa, e se, a cada desgraça cotidiana, um repórter começasse a investigar e perguntar além do script, pronto, ninguém mais chegaria a tempo na gráfica ou no estúdio.
A roda viva da vida nos faz ser menos humanos. Eu não acredito, e nem quero acreditar, que tudo está perdido. Talvez, respondendo algumas perguntas, se revelasse nessa história uma personagem oculta – a mãe desolada, ou doente, ou violentada, ou drogada, ou tudo isso junto, precisando de ajuda… A decisão de não procurá-la repete a sina do abandono.
Tudo isso me leva a crer que, quando li aquele texto de John Donne, selei meu futuro como pessoa, não apenas como jornalista. Vou lamentar, profundamente, cada morte e cada perda. Pra sempre.
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Numa conversa dessas deliciosas com a Carlota Georgina, concordamos, tempos atrás, que jornalistas de verdade têm muitas tendências a vícios. Ora, deparar-se com a realidade cruel do mundo todos os dias exige um esforço emocional com halteres. Talvez por isso eu sempre tenha fugido de bebidas e drogas, mesmo que de forma incosciente… quem me conhece sabe como eu sou à flor da pele. Eu sei lá se meu emocional agüenta… mas ele não vai estar livre de esforços por causa disso: vou empregar minha energia em responder várias perguntas, certeza.
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Um dos caras de quem eu sempre fui fã neste mundo web é um fotógrafo #dica da Mariana Hummel. Eu não sei o nome dele, muito menos de onde ele é, mas, no Flickr, ele é Razorbern. Desde que vi as primeiras fotos dele, percebi que rolava muuuuuita manipulação digital. O meu tal ídolo oculto viaja o mundo todo e tem galerias tão sensacionais que me emudecem imediatamente.
Talvez o cara seja muito mais conhecido na web do eu imagino, e talvez existam muitas controvérsias sobre o uso do Photoshop nas suas fotos, mas isso é o que menos interessa. O que eu queria mesmo, com esse post, era prestar uma homenagem a tamanha sensibilidade visual. É comum a gente se emocinar vendo um filme, lendo um livro… mas não tão comum ser tocado dessa forma por uma fotografia.
Veja abaixo uma seleção pessoal (se é que é possível aplicar outro critério).




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casos de submissão, deformação e desinformação funcional são muito comuns hoje, em um mundo em que novos meios de informação nascem a cada momento e os veículos já implantados divulgam milhares ou milhões de informações por dia. (SERVA, p.75, 2001)
A gripe A é um caso exemplar de prevalência da desinformação. Não importa o que se diga – que os índices de letalidade se equiparam aos da gripe comum, que ninguém vai pegar o vírus sem contato prévio com algum infectado, que não há motivo para pânico. As pessoas estão desesperadas, e os jornais repercutem esse desespero na mesma medida em que as pessoas se desesperam mais e mais com o que vêem nos jornais. É um ciclo de retroalimentação.
Outro dia me detive numa matéria sobre o assunto, uma das muitas que agendamos aqui na ASCOM todos os dias. Tinha um “fala povo” abaixo da reportagem, e foi exatamente o que mais me chamou a atenção, ao ponto de eu estar agora escrevendo este post a respeito.
Vejamos:

Aos olhos da maioria, mesmo que se entenda que essas palavras são desinformação em estado bruto, parece correto abrir o espaço para que o cidadão se expresse. E é isto que defenderão alguns, entre eles certamente o jornalista que assina a matéria. Mas esse é um sofisma perfeitamente refutável, porque o confronto de dados é o exercício abdominal do bom jornalismo, sem o qual o que se vê normalmente é conteúdo adiposo.
No caso desta matéria, fica claro que o repórter, mesmo sabendo que nenhum daqueles temores era procedente, insistiu em colocá-los na página – sob a desculpa, talvez, de “ilustrar” o que as pessoas pensam e “humanizar” a reportagem. Com um bom raciocínio lógico, talvez o jornalista descobrisse que a pauta estava ali – na desinformação, no medo, no temor. Ao invés de estampar um fala povo que parece dizer “ei, as pessoas estão com medo, veja isso, você não está?”, ele poderia ter feito uma belíssima matéria exatamente sobre esse medo – confrontando-o, esclarecendo-o, sendo realista sem parecer apocalíptico ou alienado. Isso é responsabilidade jornalística.
Percebo que, infelizmente, quem faz assessoria de imprensa tem essa preocupação muito mais latente. De tanto pensarmos na qualidade da informação que passamos – que precisa sempre ser a mais correta, a mais precisa e mais completa - e de tanto nos orientarmos pelo desafio de conjugar o interesse público e a imagem do assessorado, questionamos várias vezes cada palavra, discutimos o texto, lemos e relemos. Essa é a prática diária, pelo menos quando se trata de uma boa assessoria.
Lamento profundamente que nas redações o cenário seja diferente. Na verdade, desconfio que, ao invés de orientar-se pelo interesse público, alguns repórteres se orientam apenas pelo desafio de entregar a pauta a tempo, o que, sejamos justos, é, sim, um desafio diário. Mas é preciso mais, bem mais.
[ Ontem fizemos uma matéria aqui na ASCOM para anunciar que a Secretaria de Estado da Saúde já começa a mudar os procedimentos que vinham sendo adotados para o controle da doença, e deixamos claro que a nossa estratégia de comunicação também muda. Pensamos em cada palavrinha, e, mesmo assim, esperamos que as críticas chovessem hoje. Mas não, apesar de termos pautado os veículos de TV involuntariamente. Pensando bem, acho que as críticas não vieram por isso... porque pensamos em cada palavrinha. Aqui, ó: Governo do Maranhão ]
UPDATE: O telefone toca, um produtor pergunta: “vocês não vão atualizar o número de casos hoje?” “-não, informamos ontem que paramos de contabilizar os casos suspeitos, e não temos nenhum novo caso confirmado”. “-ah, nenhum caso?”…
Olha, eu não gosto de falar mal de jornalista. Mas que eles dão motivos, ah, dão.
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Saí pra lanchar com uma amiga e conversamos sobre medos, passaradas, balões, lembranças. Ela, que mora com o namorado há uns dois anos, contava que as idas e vindas dele por cidades do país, em viagens a trabalho, começava a acionar o radarzinho feminino: “não posso ficar à espera a vida toda. E quando eu tiver meus filhos, o pai vai estar aqui uma semana e duas não?”. A angústia dela me fez comentar que, aos 23 anos, profissionalmente bem colocadas e com relacionamentos estáveis, temos problemas de gente grande. Existe fórmula numa situação como essa? Acho que o caminho ideal não é dizer
- oi, fulano, eu amo você, mas não dá mais. Além de um cara bom de cama e que me dê carinho, estou começando a incluir o critério do instinto nos itens que determinam a escolha do parceiro ideal, e meu instinto me diz que o papel de cuidar da prole em dupla, como fazem os casais de nossa espécie, não vai ser bem desempenhado por você.
Ui. Um soco no estômago e um fim de namoro nada convencional em se tratando de palavras, mas muito comum em se tratando de ações.
Eu, que nunca acreditei em pré-determinismo, e sempre fui convicta ao dizer que sim, que nós é que abrimos os caminhos e conseqüentemente somos responsáveis por aquilo que nos tornamos, agora acho que em alguns momentos é preciso assumir o papel de espectador. E vou atrás de uma metáfora com algo bem popular, a brincadeira do passa-a-bola. “Lá vai a bola, girar na roda, passar depressa, e sem demora…”
É preciso saber a hora de passar a bola pra vida. Ela resolve as coisas também. Entre caminhos e descaminhos, a vida às vezes pede para entrar na brincadeira, pronta para receber a bola. Não que isso, obviamente, nos tire a primazia da ação e o tal livre arbítrio. Mas a vida, o destino, Deus, o acaso ou sabe-se o que lá, vão construindo as circunstancias, criando os meios, preparando o terreno, o cenário. Os árabes diriam Maktub. Eu prefiro dizer que não estou sempre no controle.
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Abaixo, segmento de entrevista que o poeta Ferreira Gullar concedeu à revista Bravo! no mês de fevereiro. Para continuar refletindo sobre a força do acaso.
Ferreira Gullar: (…) No fundo, a vida não passa de uma constante tensão entre acaso e necessidade.
Bravo!: Nada escapa desse binômio?
Ferreira Gullar: Nada. O que faz o homem sobre a Terra? Luta para neutralizar o acaso. Eis a principal necessidade humana: driblar o imprevisível, a bala perdida. Concebemos Deus justamente porque buscamos nos proteger da bala perdida. Deus é a providência que elimina o acaso. É o antiacaso.



